Em você nada é forjado
Pego o meu cajado
E sigo pelo mundo seco...
Em você nada é supérfluo


Nem segue o fluxo continuo
Das horas no relógio.
Há em você um contar diferente,
E o verbo ser é mais complicado,


Pois ele está escondido em seu olhar.
Está coberto de peles e medos.
Um dia deixarei de conduzir-te
Teremos que seguir, um sem o outro


E uma dor já me toma.
Tola, mulher, esse é o curso
Natural da vida...
Mas que miséria é essa?


Que vem tomar meu pensar.
Vai-te, preciso fazer outras coisas
Coisa de louco,
E daí?


Em você a palavra é curta e exata.
Ou quer ou não quer...
Mas às vezes penso no que conversaríamos,
Talvez um bocado de futilidade
Que importa, ao menos falaríamos...

Eu sei...
Às vezes a dor vem com violência
Uma sensação de inutilidade visceral


Porque não podemos mudar o presente
Mas podemos compartilhar a luta.
E eu, cheia de todos os cansaços
Vou encostar-me num canto qualquer


E chorar, e daí, há dias assim,
Que toneladas de angústia, vêm cair
Em nossas cabeças...
Mas em você, tudo é simples


E sem retórica,
Acordar e cantar,
Comer e dormir
Aprender o básico.


A minha dor não te alcança
Mas o meu amor, sim
Então esqueça esse dia;
Eu, imperfeita, incógnita, pessoa!


Autora
Liê Ribeiro
Mãe de um rapaz autista.

Comentários

  1. Sem ti a vida do menino
    não teria tino,
    não teria o sino que acorda o domingo.
    Sem ti o menino ficaria perdido,
    na boca do mundo, no olho da rua,
    sem pai, sem mãe, num esboço do mundo.
    Vem de ti a vida do menino!

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