Eu fui do céu ao inferno...




Eu fui do céu ao inferno
Para compreender
Que meus passos
Muitas vezes apressados
Não te alcançariam.

Eu fui fundo em minhas dores
Para cavar lá
Alguma esperança
De vencer a mim mesma
Para chegar até onde você se encontrava

O que eu encontrei?
Alguém amedrontado
Alguém profundamente inocente
Pronto para estender as mãos
Pronto para doar seus sentimentos
Mas ainda longe da minha perspectiva

Minha visão torta.
Queria alguém que não existia
Teria que aceitar aquela pessoa
Incoerente, inconsistente
Inquieto, e cheio de rituais

Mundo e formas
Quando olho para trás
Vejo um cansaço em nossos passos.
Vejo um caminhar
Muitas vezes sozinha
Outras com você ao lado
Mas não presente...
Longe numa estrada distante

Mas no deserto da nossa existência
Eu não desistia
Via sempre um oasis a frente
Sede de viver, sede de ter
Nem que fosse somente um pedacinho
Um cantinho do seu olhar
Algo a que me apegar...
Ilusão de ser feliz um dia.
Mas ao invés do deserto

O imenso oceano para navegar
Mal sei eu nadar.
E na vida
Muitas vezes nos afogamos
Em nossas próprias mágoas
Alguém ficou pelo caminho
Sempre fica...

Nosso barco a deriva
Mente e corpo, sonho e pesadelo
Mas lá fomos nós,
Quando alcançamos a terra firme
Cambaleando pela areia movediça
Da minha própria insensatez
Quem eu queria jamais viria.

Mas ali existia um ser mágico
Pronto para modificar minha história
Então não venham nos dizer
Que não vencemos nossa batalha
Nessa guerra injusta da humanidade
Estamos aqui corpo e alma
Numa sintonia que jamais achei viver...

Você autista, eu mãe
Você pessoa, eu aprendendo a ser.
Você sorridente...
Você olhando fundo em meus olhos
Limpando minhas lágrimas
Eu, beijando tua face, tua essência preservada
O que nos une?
Foi o que achei que nos separaria...
Sua pessoa autista...


Autora
Liê Ribeiro
Mãe de um rapaz autista.

Comentários

  1. Muito bom, Senhora Poeta.
    Admirável o seu dom de expressar os sentimentos.
    sua eterna fã!

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